A morada do Espírito Santo


“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” — 1 Cor. 6:19

Poucos textos da Bíblia são tão enigmáticos e com implicações tão grandiosas como esse. A ideia de ter o Espírito Santo habitando em nós é grandiosa demais! Seria essa passagem algo metafórico, ou literal? Se é literal, como pode acontecer? Há outras partes da Bíblia que nos ajudam a entender essa passagem? Este artigo se propõe a considerar e responder tais perguntas.

ENTENDER A NATUREZA DO ESPÍRITO SANTO É FUNDAMENTAL

Em primeiro lugar, para entendermos corretamente 1 Cor. 6:19, precisamos entender a natureza do Espírito Santo. Muitos pensam que o Espírito Santo é uma terceira pessoa da Trindade. Mas em lugar algum da Bíblia essa ideia é afirmada explicitamente. Há muito mais provas em contrário. Por exemplo, quando lemos o inteiro livro de Apocalipse, em momento algum vemos o Espírito Santo junto com Deus e o Cordeiro, Jesus. Apocalipse 22:1, 3 diz: “E mostrou-me o rio puro da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro. (...) E ali nunca mais haverá maldição contra alguém; e nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os seus servos o servirão.” Note que o texto não menciona o Espírito Santo sentado no Trono. Numa das mais belas orações registradas na Bíblia, Jesus diz: “Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” (João 17:3) Vejam que, para obter vida eterna, precisamos conhecer a Deus e a Jesus. Mas por que será que o Espírito Santo não foi mencionado? Não seria de esperar que, se o Espírito Santo fosse parte de uma Trindade, ele seria mencionado nesse texto tão importante? O fato de não ter sido é mais uma das provas que o Espírito Santo não é uma pessoa. A Bíblia diz que o Espírito Santo é meramente a força ativa de Deus. Por meio do Espírito Santo, Deus executa Sua vontade, nos ajuda, nos consola, nos cura e nos faz viver, tudo a seu devido tempo. (Posteriormente publicaremos um artigo oferecendo mais provas de que o Espírito Santo é uma força.)

UMA FORÇA “DERRAMADA” SOBRE A IGREJA

Foi o Espírito Santo como força, e não como pessoa, que foi “derramado” sobre os cerca de 120 discípulos reunidos num sobrado em Jerusalém. (Atos 1:15) Isso fez com que aquilo que falavam fosse simultaneamente entendido em diversos idiomas! (Atos 2:7-11) Em diversas outras ocasiões, o Espírito Santo habilitou os primeiros discípulos a profetizarem, falar em línguas (um milagre diferente do de ser entendido em diversos idiomas, como descrito no capítulo 2 de Atos), realizarem curas e até ressurreições. A Bíblia claramente relaciona o Espírito Santo com um “poder”, ou “força”: “Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra.” (Atos 1:8, BJ)

OS DONS MILAGROSOS DESAPARECEM, MAS O ESPÍRITO SANTO PERMANECE

Embora aqueles cristãos estivessem especialmente “energizados” pelo Espírito de Deus, o apóstolo Paulo nos diz que esses dons milagrosos cessariam: “O amor nunca perece; mas as profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o conhecimento passará.” (1 Cor. 13:8) Mas isso não quer dizer que o Espírito Santo seria removido da Igreja. Tanto é que Paulo continua dizendo: “Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor.” (v. 13) A fé, a esperança e o amor são três aspectos do chamado “fruto do Espírito”, em Gálatas 5:22, 23: “O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio.” Ter o fruto do Espírito é uma das provas que o Espírito Santo “mora” em nós.

UMA MORADA LITERAL, NÃO METAFÓRICA

Os nove aspectos do fruto do Espírito descritos acima são uma das evidências de que temos essa “força” de Deus, mas tais qualidades, em si mesmas, não são o próprio Espírito de Deus. Mesmo pessoas que não são cristãs podem desenvolver certa medida de domínio próprio, amor, bondade, etc. Isso não significa que o Espírito Santo “mora” nelas também.

Então, como o Espírito Santo “mora” nos cristãos consagrados? Precisamos nos lembrar que o Espírito Santo é a força ativa de Deus. Assim como a eletricidade pode ser armazenada e usada para ativar um aparelho eletrônico, nós podemos contar com a presença do Espírito de Deus em nós. Jesus nos disse: “Vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos. Quanto mais o Pai, que está no céu, dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem!” (Lucas 11:13) Note que o Espírito Santo não é descrito ali como algo que a pessoa pode desenvolver, ou algo que vem dela mesmo, mas sim como algo externo, que procede de Deus e a Ele precisa ser pedido. É por isso que 1 Cor. 6:19 diz que o Espírito Santo é “proveniente” de Deus, ou, conforme verte a Nova Versão Internacional, “foi dado por Deus”.

Independentemente da operação realizada pelo Espírito Santo — ungir, curar, fortalecer, consolar, etc., algumas das quais cessaram no primeiro século — o fato é que o Espírito Santo é uma força externa que é dada ao crente consagrado e com ele permanece, ou “mora”. Que coisa grandiosa essa! Quando pensamos que temos o privilégio de dar morada ao Espírito de Deus em nós, somos motivados a reagir positivamente: “Sejam obedientes a Deus e não deixem que a vida de vocês seja dominada por aqueles desejos que vocês tinham quando ainda eram ignorantes. Pelo contrário, sejam santos em tudo o que fizerem, assim como Deus, que os chamou, é santo. Porque as Escrituras Sagradas dizem: ‘Sejam santos porque eu sou santo.’” (1 Ped. 1:14-16)

Como bons hospedeiros, queremos cuidar bem de nossa “casa” — nosso corpo, nossa mente, nosso íntimo — para não perdermos nosso convidado de honra: “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim.” Aqui vemos duas coisas. Primeiro, que Jesus Cristo está diretamente envolvido em nos fazer “casa de Deus”. É Jesus que derrama o Espírito que ele recebeu de Deus em nós: “Exaltado à direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou o que vocês agora veem e ouvem.” (Atos 2:33) Em segundo lugar, vemos que precisamos manter nossa confiança e a esperança até o fim para continuarmos como tal “casa”.

QUANDO O ESPÍRITO SANTO NÃO MORA MAIS EM ALGUÉM

É possível perdermos o Espírito Santo de Deus. Assim como um hóspede ofendido se retira de nossa casa, quando pecamos contra o Espírito Santo essa força pode ser removida de nós. Se abandonarmos nossa fé e esperança, se deixarmos de ouvir sua “voz” por meio da Bíblia, se nosso coração ficar endurecido a tal ponto que não há mais possibilidade de arrependimento (Romanos 8:7-19), corremos o sério risco de “ofendermos” o Espírito Santo, a tal ponto de ele ir embora. Naturalmente, o Espírito Santo não se retira por qualquer pecado. Ele está em nós justamente para nos ajudar a vencer o pecado e nos levar ao genuíno arrependimento. Mas se continuarmos na rebeldia, sem sincero propósito de abandonarmos o pecado, já não seremos membros do Corpo de Cristo: “Se continuarmos a pecar deliberadamente depois que recebemos o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados, mas tão somente uma terrível expectativa de juízo e de fogo intenso que consumirá os inimigos de Deus.” (Heb. 10:26, 27)

Que isso nunca aconteça conosco! Se pecarmos, não importa o quão gravemente, devemos imediatamente nos aproximar do Trono de Graça de Deus e nos arrepender profundamente. Como Davi, podemos pedir Jeová: “Não me expulses da tua presença nem tires de mim o teu Santo Espírito.” (Sal. 51:11) Felizmente, temos ao nosso lado um grande Advogado, Jesus Cristo, que nos defende perante o Pai: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.” (1 João 2:1) Ainda que estejamos muito tristes por nosso erro, devemos nos lembrar de 1 João 3:20: “Se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que o nosso coração, e conhece todas as coisas.”

ANDANDO COM O ESPÍRITO SANTO

O fato de o Espírito Santo habitar em nós faz de nosso corpo um “templo”, ou “santuário”, conforme vimos em nosso texto introdutório. Num templo, orações são frequentemente oferecidas. Os cristãos consagrados, portanto, devem “orar no Espírito”. (Efésios 6:18) Isso é algo muito mais que meramente intelectual. De fato, o apóstolo Paulo até diferencia essas duas coisas, ao dizer: “Orarei com o espírito, mas orarei também com a mente.” (1 Cor. 14:15) Isso quer dizer que devemos permitir que o Espírito de Deus mova nosso coração e mente para orarmos em harmonia com a vontade de Deus. Mesmo quando não temos palavras, o Espírito que mora em nós conhece nossos mais íntimos sentimentos. Romanos 8:26 diz: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis.” Inexprimíveis para nós, mas plenamente inteligíveis para nosso Deus e Pai, a fonte derradeira do Espírito Santo!

O ALVO E O OBJETIVO DE SATANÁS

“Alvo” e “objetivo” podem ser sinônimos, mas estamos falando de duas coisas diferentes aqui. Sabemos que “o mundo todo está sob o poder do Maligno”. (1 João 5:19) Embora Satanás se oponha contra toda a humanidade, há um certo grupo que recebe sua “atenção” especial. Ele sabe que, quando o “pequeno rebanho” ficar completo, Jesus lançará Satanás no “Abismo”, e isso o deixa muito furioso, especialmente porque “sabe que lhe resta pouco tempo”. (Apo. 12:12) Por isso, nós, as Novas Criaturas, somos o alvo de Satanás, que quer, de todos os modos, interferir no Plano de Deus. De todos os bilhões de seres humanos, Satanás concentra todos seus esforços na Igreja remanescente. Satanás e seus demônios (anjos rebeldes) usam esse pouco tempo que resta “para, se possível, enganar até os eleitos”. (Mat. 24:24) “Eis que Satanás já recebeu autorização para vos peneirar como trigo!” (Luc. 22:31, KJA) Mas com qual objetivo? Não é meramente nos enfraquecer, pois ele sabe que, enquanto houver arrependimento, podemos, pela misericórdia de Deus, herdar a vida espiritual na Grande Multidão, no céu.* (Apo. 19:1) O objetivo de Satanás é fazer com que percamos totalmente nossa coroa da vida. Ele quer ter o “gostinho” de dizer que levou para a Segunda Morte, para o Lago de Fogo, muitos dos que anteriormente haviam sido “escolhidos e eleitos” por Deus, mas que não confirmaram essa escolha e eleição por não andarem pelo Espírito, chegando ao ponto de pecarem contra essa própria força! Nosso irmão Pedro perguntou a Ananias (um cristão do primeiro século): “Como você permitiu que Satanás enchesse o seu coração, a ponto de você mentir ao Espírito Santo e guardar para si uma parte do dinheiro que recebeu pela propriedade?” (Atos 5:3) Infelizmente, Satanás foi bem- sucedido com Ananias e Safira. Que isso nunca aconteça conosco! Que nunca mintamos para o Espírito Santo, que em nós vive.

UMA “PRISÃO” COM MUITAS “CELAS”

“Não tenha medo do que você está prestes a sofrer. Saibam que o diabo lançará alguns de vocês na prisão para prová-los.” (Rev. 2:10) Sabemos que isso se aplica primariamente a prisões literais. Nosso próprio irmão João, sob inspiração do Espírito Santo, escreveu esse texto dentro de uma prisão. Mas, figurativamente falando, podemos ficar “presos” de muitas outras maneiras. Na “prisão” de Satanás há muitas “celas”: imoralidade sexual (que inclui pornografia, fornicação, adultério, as muitas formas de homossexualismo, etc.), violência gratuita e extrema (em videogames, filmes, livros, HQs, etc.), ganância (por fama, dinheiro, alimentos, bebidas, etc.). Muitos cristãos, antes de se tornarem uma Nova Criatura, eram prisioneiros em algumas dessas “celas”: “Nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. Assim foram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus.” (1 Cor. 6:9- 11) Nosso irmão Paulo fala de coisas do passado, mas seria possível voltarmos para essas coisas? Infelizmente, sim. E agora, quais Novas Criaturas, temos um desafio maior. Não apenas devemos evitar praticar tais coisas, mas devemos evitar até mesmo entreter tais sentimentos no coração. O próprio Jesus disse: “Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração.” (Mat. 5:28)

Assim, precisamos continuar a aceitar a ajuda do Espírito Santo para monitorarmos nossas ações e pensamentos. É verdade que jamais alcançaremos a perfeição enquanto neste corpo imperfeito, mas podemos ter a “perfeição de intenção”. Isso quer dizer que, ao termos pensamentos impuros, ou, se infelizmente, materializarmos um pensamento impuro em ações, podemos contar com a ajuda do Espírito Santo para vencer essas coisas e para orarmos a Deus buscando imediatamente o perdão e a recuperação, em nome de Jesus.

Precisamos levar isto bem a sério: “Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei, pois os membros de Cristo, e os farei membros de uma meretriz? Ou não sabeis que o que se une à meretriz, faz-se um corpo com ela? Porque, como foi dito, os dois serão uma só carne.” (1 Cor. 6:15) Não queremos expor o Espírito de Cristo em nós a essa união ilícita. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus. Entretanto, vocês não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. Mas se Cristo está em vocês, o corpo está morto por causa do pecado, mas o espírito está vivo por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocês, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vocês. Portanto, irmãos, estamos em dívida, não para com a carne, para vivermos sujeitos a ela. Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão, porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.” (Rom. 8:8-14)

A UNIÃO DESEJÁVEL

Santos irmãos, o Espírito Santo é a força que nos une a Jeová e a Jesus. Ele está realizando em nós uma obra. Por meio da Palavra da Verdade e do Espírito Santo, fomos gerados como uma Nova Criatura. Somos, literalmente, algo novo, pois, ao contrário do mundo, temos em nós a força mais santa e poderosa do Universo. E, se hoje temos em nós o Espírito Santo nos ajudando a moldar nosso caráter à semelhança de Cristo, se permitirmos que essa obra seja concluída e formos fiéis até o fim, esse mesmo Espírito moldará para nós um corpo à semelhança do corpo espiritual de Jesus. Quando isso acontecer, nossa nova morada será bela e indestrutível. Pois, Deus “dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade.” (Rom. 2:7)

* O entendimento tradicional dos Estudantes da Bíblia é que a Grande Multidão (Apo. 7:9-17; 19:1) é uma classe celestial secundária; uma “classe de misericórdia”, uma classe de cristãos que não mantiveram suas vestes “sem mancha, nem mácula do mundo”, e, por isso, tiveram de ser purificados pelo fogo da Grande Tribulação. (1 Cor. 3:11-15) Alguns poucos Estudantes da Bíblia creem, porém, que a Grande Multidão é uma classe terrestre que surgirá apenas após a Grande Tribulação, e não é composta de atuais cristãos verdadeiros. Trata-se do mundo da humanidade, que será redimido pelo sangue de Jesus durante a Era Milenar.

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